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sexta-feira, agosto 14, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 20

 


20. Pernambucano do Recife, onde nasceu a 17 de março de 1921, Antônio Maria de Araújo Morais, ou simplesmente Antônio Maria, foi um dos maiores cronistas brasileiros do seu tempo. Compositor de sucessos inesquecíveis como “Ninguém me ama” ou “Se eu morresse amanhã”, ele foi locutor esportivo, poeta e radialista. Mas, para companheiros de farras como Vinícius de Moraes, Fernando Lobo e outros, sua marca maior foi, sem dúvida, a boemia.

E foi como boêmio que Maria morreu, na noite de 15 de outubro de 1964, no Rio de Janeiro, ao entrar no bar Red Point, perto de sua casa, para trocar um cheque. Ele se sentou a uma mesa e, enquanto esperava o dinheiro, passou mal. Emborcou sobre a mesa e ali mesmo o coração parou. Enfarte fulminante.

Neto e filho de usineiros, antes da glória de ver suas músicas nas paradas de sucesso (interpretadas por Dolores Duran, Nora Ney ou Maysa), Antônio Maria viveu dias um tanto difíceis. Primeiro, no Recife, em meados da década de 30, quando os negócios da família decaíram e ele, ainda adolescente, teve que arranjar um emprego na Rádio Clube de Pernambuco, para bancar as já frequentes noitadas no bar Gambrínus e no Cabaré Imperial.

Depois, a dureza continuou no Rio de Janeiro, para onde viajou em 1939, com Fernando Lobo, para “tentar a vida”: seu trabalho, como locutor esportivo na Rádio Ipanema, não agradou e ele chegou a passar fome. Frustrada a primeira tentativa de morar no Rio, Antônio Maria retornou ao Recife, onde gostava de narrar, sobretudo, os jogos do seu clube, o Sport.

Em seguida, convidado por Assis Chateaubriand (chefe dos Diários e Emissoras Associados), aceitou o cargo de diretor da Rádio Clube do Ceará e, já casado com sua primeira mulher, seguiu para Fortaleza. Depois, mudou-se para Salvador, também convidado para a direção das Emissoras Associadas da Bahia. Antônio Maria permaneceu no Nordeste até 1948 quando, mais uma vez, embarcou para o Rio de Janeiro.

Foi a viagem definitiva para a cidade maravilhosa, onde iria conhecer o sucesso e viver mil aventuras. Antônio Maria passou a dividir um apartamento com Fernando Lobo na rua do Passeio, no Centro, onde seguidamente o também pernambucano Abelardo Barbosa (futuro Chacrinha) ia se convidar para o jantar. O “velho guerreiro” sempre ganhava comida, mas antes passava por alguma sacanagem da dupla, como ter que tomar banho gelado.

Em 1949, Maria já era diretor da Tupi, cargo em que se manteve até sair da emissora. Continuava à frente do microfone, onde narrava e produzia O Tempo e a Música, às quintas, às 21h. Ainda em 1949, ele foi convidado por Ary Barroso para inaugurar um novo tipo de narração de futebol: dois locutores, cada um narrando a posse de bola de uma das equipes. Por exemplo: num Flamengo x Vasco, Ary narraria bola com o Flamengo e Maria, bola com o Vasco. A ideia funcionou bem e foi aplicada na Copa do Mundo de 1950, disputada no Brasil.

A decepção de Maria e Ary com a derrota do Brasil na Copa de 50 foi total. Ary largou a narração esportiva (só retornou após quase 10 anos), enquanto Maria continuou, para cumprir seu contrato, embora não sentisse mais nenhum prazer na atividade. Há indícios de que Maria era vascaíno.

Sendo amigo de Fernando Lobo, Antônio Maria começou logo de cara a frequentar os grandes pontos da boemia carioca, como o Vilariño e o Clube da Chave, onde sempre estavam Ary Barroso, Vinicius de Moraes, Sérgio Porto (com quem disputou o amor de várias vedetes), Millôr Fernandes, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Aracy de Almeida e Dolores Duran.

Já assinando uma coluna no O Jornal, Antônio Maria torna-se, a 20 de janeiro de 1951, o primeiro diretor da primeira emissora de televisão instalada no Brasil, a TV Tupi do Rio. Mas graças ao dinheiro que o governo Getúlio Vargas despejou em troca de apoio político, no final de 1952 a rádio Mayrink Veiga partiu para o ataque contra a Tupi e passou a contratar seus grandes nomes. Antônio Maria foi um dos primeiros contratados, por 50 mil cruzeiros, o mais alto salário do rádio no Brasil. Logo comprou seu primeiro Cadillac, símbolo de status entre os reis do rádio naquela época.

Vida financeira organizada, é também a partir de 1951 que ele dá partida à carreira de compositor, compondo “Frevo n° 1 do Recife”, gravado pelo Trio de Ouro. E, apesar de ter como atividade principal o jornalismo, foi justamente com a música que ele ganhou fama. Durante 15 anos de trabalho, só ou em parceria com Fernando Lobo, Luís Bonfá, Vinícius de Moraes, Ismael Neto e outros, compôs um total de 63 músicas.

Como cronista, Maria atuou em vários jornais e revistas, entre os quais Diário Carioca, O Globo, Manchete. Mas foi no Última Hora, segundo Paulo Francis (um dos seus companheiros de noitadas), que ele teve a sua melhor fase. Poético, gozador, Maria escreveu sobre tudo: mulheres, política, boemia, solidão.

Homem de muitas atividades, Antônio Maria foi também produtor e diretor de shows e programas de televisão. Por conta da boemia, sempre trocava o dia pela noite, mas dava conta de tudo. Teve época em que fazia, simultaneamente, três programas semanais na Rádio Mayrink Veiga, um programa na Rádio Nacional, uma crônica para a revista Manchete, uma para O Globo e seis para o Diário Carioca e, de quebra, ainda arrumava tempo para compor, enchera cara de birita e correr atrás dos rabos de saias.

Na televisão era famoso o programa “Preto no Branco”, de Oswaldo Sargentelli, onde sempre aparecia uma “pergunta de Antônio Maria, da produção do programa”, geralmente muito embaraçosa. A câmera focalizava em plano fechado o rosto tenso do entrevistado e em seguida ecoava a voz do apresentador, em off: “Pergunta de Antônio Maria para Alziro Zarur, da Legião da Boa Vontade: Senhor Alziro Zarur, se Jesus está chamando, porque o senhor não vai logo?”.

Um dia perguntou a Sandra Cavalcanti, candidata a deputada: “Quer dizer, dona Sandra, que a senhora é mal-amada?” A resposta de Sandra, dizem os espectadores da cena, assegurou-lhe a eleição. “Posso até ser, senhor Maria, mas não fui eu que fiz aquela música Ninguém me ama”.

Nos últimos meses de vida, já doente do coração e um pouco afastado das madrugadas, montou com Ivan Lessa, no Rio de Janeiro, um escritório de produções para TV. Do seu primeiro casamento (com a pernambucana Maria Gonçalves Ferreira), teve dois filhos: Maria Rita e Antônio Maria Filho.

E, como todo boêmio, amou muitas mulheres, milhares delas. Segundo José Aparecido, a última grande paixão de Antônio Maria foi Danusa Leão, que ele roubou do proprietário do jornal Última Hora, Samuel Wainer, e por isso foi demitido, passando cinco meses desempregado. Quando conseguiu um novo emprego, a primeira crônica que Maria escreveu tinha o título “O bom caráter” e começava assim: “Aqueles que dizem que mulher de amigo meu pra mim é homem estão enganados; porque mulher de amigo meu é mulher mesmo.”

Quando sofreu o enfarte, Antônio Maria já estava separado de Danusa Leão, que se reconciliaria, em Paris, com Samuel Wainer. E José Aparecido, que seis meses antes havia dividido um apartamento com o cronista, depois contaria: “Estávamos numa situação muito difícil. Eu, cassado e o Antônio Maria vivendo a sua mais profunda crise sentimental. Foi o único homem que vi morrer de amor”.

Mesmo sendo uma pessoa extrovertida e de muitos amigos (e inimigos), Maria, como era chamado por eles, sempre teve a solidão dentro de si. Um exemplo está em sua crônica “Oração”, escrita em março de 1954:

“Rosinha Desossée, me tire desse quarto de hotel e de todas as coisas que entram pela janela; me leve para longe das palmeiras, mais longe e perto das coisas mais macias; me faça esquecer (depressa) os homens ruins – isto é: os que gostam de cebola crua; me ensine, Rosinha Desossée, tudo o que eu não aprendi: a cortar com a mão direita, a usar anel, a tocar piano, a desenhar uma árvore e valsar; e me lembre do que eu esqueci – raiz quadrada, (as mais ordinárias), frações, latim, geofísica e “Navio Negreiro”, de Castro Alves; depois, me dê, pelo bem dos seus filhinhos, aquilo que eu não tenho há quase um ano, carinho – de um jeito que eu não sei dizer como é, mas que há, por aí ou, pelo menos, já houve; destelhe a casa, deixe a noite entrar e, juntos, vamos nos resfriar; espirre de lá, que eu espirro de cá... agora, cada um com a sua bombinha, inalação, inalação; lado a lado, sentemos, os dois de perfil para o ventilador; minhas mãos e as suas não são de ninguém, entendido?; se interesse por mim e pergunte o que eu sei, que eu quero exclamar, no mais puro francês: “oh!...comment allez vous? (...) de um jeito ou de outro, me tire daqui, pra Pérsia, Sibéria, pro Clube da Chave, pra Marte, Inglaterra, sem couvert, sem couvert; está vendo o retrato dos meus 20 anos? de lá para cá, cansaço, pé chato, gordura, calvície fizeram de mim essa coisa ansiosa, insegura e com sono, que pede a você, no auge do manso: você, Desossée, não saia esta noite e fique, ao meu lado, esperando que o sono me tome e me mate, me salve e me leve, por amor ao teu andar, assim seja (...)”


Aracy de Almeida foi uma de suas grandes amigas. Sabia tudo sobre Antônio Maria e, mesmo assim, como dizia brincando, continuava a gostar dele. Era desprovido de qualquer cerimônia: uma vez pediu a ela ajuda para colocar um supositório (“Já tentei todas as posições e não consegui nada.”). Em outra oportunidade, ele e Vinícius de Morais tentavam cumprir um compromisso assumido: fazer um jingle para o lançamento de um... regulador feminino. Estavam com inúmeros outros trabalhos e foram pedir ajuda a Aracy. Ela, sem pensar muito, tomando emprestada a melodia de O orvalho vem caindo, de Noel, atacou de pronto: “O ovário vem caindo...”.

Carlos Heitor Cony dizia que se o autor fosse mandado para cobrir a posse do papa, voltaria cardeal. É Cony que conta: “Um dia, Maria me telefona: – Carlos Heitor, Carlos Heitor, você nunca me enganou! Disse então que, vindo de São Paulo, viu no avião uma mulher linda lendo o livro Matéria de Memórias, de Cony. Aproximou-se, se apresentou como o autor do livro, e a mulher, uma típica leitora apaixonada, acreditou. Pintou para ela um quadro bastante dramático: era um desgraçado, que nunca tinha tido sucesso, que as mulheres o abandonavam. “– Mas, Maria...” era tudo o que o espantado Cony conseguia dizer. “– Fica tranquilo, Cony, fica tranquilo porque em seguida nós fomos pra cama. Ou melhor, você foi pra cama.” E Cony, curioso: “– E ai?” “– E aí foi que aconteceu o problema” – gargalhava Maria. “– E aí você broxou, Cony, você broxou!”

Certa ocasião, estava em cima da hora de um programa entrar no ar e, enquanto Chico Anísio e todo o elenco aguardavam ansiosos, Antônio Maria datilografava feito louco para terminar o texto a tempo. Nesse instante, entra uma senhora na redação e diz: “Olhe, eu sou da Campanha Contra o Câncer...” Preocupado em cumprir sua tarefa, sem levantar os olhos da máquina, Antônio Maria, responde: “Eu sou a favor”.

Antônio Maria costumava ir do Rio a São Paulo, em companhia de Vinícius de Moraes, para encontrar companheiros de farras. Numa dessas viagens, combinaram o encontro no apartamento de um deles e, quando chegaram ao edifício, notaram um princípio de incêndio. Da portaria, Antônio Maria telefonou: “Olha, desçam logo, mas não avisem a ninguém, porque senão vocês vão ter de dar preferência aos velhos e às crianças.”

Por causa de Elis Regina, Ronaldo Bôscoli apelidou Maria de “Eminência Parda” e “Galak”, numa gozação com a pele mulata do rival. Mas talvez não soubesse das suas dimensões: Antônio Maria media 1,85m e pesava 130 kg. Certa noite, Maria procurou Bôscoli no Beco das Garrafas, em Copacabana, para brigar. O diretor da gravadora Elenco, Aloysio de Oliveira, amigo dos dois, divertia-se com a cena, mas, quando o conflito parecia inevitável, Aloysio urinou no sapato de Maria. Este parou de discutir, os três caíram na gargalhada e foram beber juntos.

Conta Stanislaw Ponte Preta que, certa vez, Maria recebeu o pedido do diretor da TV Rio Péricles do Amaral para reescrever um texto humorístico. O programa era horrível, e a emissora mantinha outro redator só para piorar os textos. Ao saber do pedido, Maria entrou na sala do diretor com cara de mau, jogou seu texto em cima da mesa e disse: “Está aqui minha parte do programa. Eu sinto muito, mas pior do que isso eu não sei fazer”.

Em 1990, Paulo Francis escreveu que, na véspera do infarto fulminante, Maria “detonara muito” com cocaína, porque Vinicius lhe dissera que Danuza estava muito feliz na França, podendo ser vista na garupa da moto de um príncipe dinamarquês.

Em 1994, Ronaldo Bôscoli, pouco antes de morrer, também afirmou que Maria usava cocaína e mostrou que continuava ressentido com o antigo rival, tratando-o por canalhão e babaca em suas memórias (livro “Eles e Eu”). Já o cineasta Paulo César Saraceni, que em 61 convivera com Maria porque namorava Nara Leão, irmã de Danuza, escreveu em 1993, no livro “Por Dentro do Cinema Novo”: “Antônio Maria tinha fama de cheirar pó, mas nunca vi, se fazia era um profissional, discretíssimo”.

No dia 15 novembro de 1964, Vinicius de Moraes publicou a crônica “Morrer num Bar”, escrita no dia da morte do amigo:

“Aí está, meu Maria... Acabou. Acabou o seu eterno sofrimento e acabou o meu sofrimento por sua causa. Na madrugada de 15 de outubro em que, em frente aos pinheirais destas montanhas queridas, eu me sento à máquina para lhe dar este até-sempre, seu imenso coração, que a vida e a incontinência já haviam uma vez rompido de dentro, como uma flor de sangue, não resistiu mais à sua grande e suicida vocação para morrer.

Acabou, meu Maria. Você pode descansar em sua terra, sem mais amores e sem mais saudades, despojado do fardo de sua carne e bem aconchegado no seu sono. Acabou o desespero com que você tomava conta de tudo o que amava demais: o crescimento harmonioso de seus filhos, o bem-estar de suas mulheres e a terrível sobrevivência de um poeta que foi o seu melhor personagem e o seu maior amigo. Acabou a sua sede, a sua fome, a sua cólera. Acabou a sua dieta. Aqui, parado em frente a estas montanhas onde, há trinta anos atrás, descobri maravilhado que eu tinha uma voz para o canto mais alto da poesia, e para onde, neste mesmo hoje, você deveria chamar porque (dizia o recado) não aguentava mais de saudades – aprendo, sem galicismo e sem espanto, a sua morte.

Quando a caseira subiu a alegre ladeirinha que traz ao meu chalé para me chamar ao telefone – eram nove da manhã – eu me vesti rápido dizendo comigo mesmo: “É o Maria!” E ao descer correndo para a pensão fazia planos: “Porei o Maria no quarto de solteiro ao lado, de modo a podermos bater grandes papos e rir muito, como gostamos…” E ainda a caminho fiquei pensando: “Será que Itatiaia não é muito alto para o coração dele?...” Mas você, há uma semana – quando pela primeira e última vez estivemos juntos depois de minha chegada da Europa, numa noitada de alma aberta – me tinha tranquilizado tanto que eu achei melhor não me preocupar. Eu sabia que seu peito ia explodir um dia, meu Maria, pois por mais forte e largo que fosse, a morte era o seu guia.

Outra noite, pelo telefone, ao perguntar eu se você estava cuidando de sua saúde, você me interpelou: “Você tem medo de morrer, Poesia?” “Medo normal, meu Maria”, respondi. “Pois olhe: eu não tenho nenhum” retorquiu você sem qualquer bravata na voz. “Só queria que não doesse demais, como na primeira crise. Aquela dor, Poesia, desmoraliza.”

Mas como eu descesse – dizia – para atender à sua chamada, e atravessasse o salão da casa-grande, e entrando na cabine ouvisse (como há 14 anos atrás ouvi a voz materna) a voz paternal de meu sogro que me falava, preparando-me: “Você sabe, Antônio Maria está muito mal...” e eu instantaneamente soubesse... – justo como naquela época soube também, quando a voz materna, em sinistras espirais metálicas, me disse do Rio para Los Angeles: “Sabe, meu filho, seu pai está muito mal...”, o nosso encontro marcado deu-se numa dimensão nova, entre o mundo e a eternidade: eu aqui; você... onde, meu Maria? – onde?

Ah, que dor! Agora correm-me as lágrimas, e eu choro embaçando a vista do teclado onde escrevo estas palavras que nem sei o que querem dizer...

Há uma semana apenas conversamos tanto, não é, meu Maria? Você ainda não conhecia minha mulher, foi tão carinhoso com ela... Tomamos uma garrafa de Five Stars no Château, depois fomos até o Jirau e terminamos no Bossa Nova. Eu ainda disse: “Você pode estar bebendo e comendo desse jeito?” “Por que, Poesia? Não há de ser nada... Qualquer dia eu vou morrer é assim mesmo, num bar...”

Eu só espero que não tenha doído muito, meu Maria. Que tenha sido como eu sempre desejei que fosse: rápido e sem som. Mas é uma pena enorme. Você tinha prometido à minha mulher, a pedido dela, que recomeçaria hoje, nesta quinta-feira do seu recesso, no seu “Jornal de Antônio Maria” o seu “Romance dos pequenos anúncios”, que foi uma de suas melhores invenções jornalísticas e onde eu era personagem cotidiano: você sempre a querer fazer de mim, meu pobre Maria, o herói que eu não sou...

Mas por outro lado, sei lá... Você disse nessa noite, à minha mulher e a mim, que nem podia pensar na ideia de sobreviver às pessoas que mais amava no mundo: sua mãe, seus dois filhos, suas irmãs e este seu poeta. “E Rubem Braga...”, acrescentou você depois, brincando com ternura, “Eu não queria estar aí para ler quanta besteira se ia escrever sobre o Braguinha...”

Não irei ao seu enterro, meu Maria. Daria tudo para ter estado ao seu lado na hora, para lhe dar a mão e recolher seu último olhar de desespero, de maldição para esta vida a que você nunca negou nada e o fez sofrer tanto. Daqui a pouco o sino da casa-grande tocará para o almoço. Verei minha mulher descer, triste de eu lhe ter dito (porque ela dorme ainda, meu Maria...) e de me deixar assim sozinho, sentado à máquina de escrever, com a sua morte enorme dentro de mim.”

quinta-feira, agosto 13, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 19

 


19. Falecido em janeiro de 1976, o impagável Neném Prancha começou sua carreira como roupeiro do Botafogo e terminou sua vida como olheiro de futebol de praia. O ilustre cidadão era assim apelidado por conta das mãos de 23 centímetros e dos pés de número 44. Embora não fosse jogador nem treinador, Neném Prancha era reconhecido como grande conhecedor de futebol. Mas não foi nem por sua sabedoria futebolística nem por suas estranhezas – nunca falava de seu passado e, embora fosse visto todos os dias na praia, jamais era visto no mar – que ele ficou célebre. Foi, na verdade, pelas frases irreverentes.

Neném Prancha foi o autor de sentenças que ficaram marcadas ao longo do tempo, como “se concentração ganhasse jogo, o time do presídio não perdia uma partida” ou “o goleiro deve andar sempre com a bola, mesmo quando vai dormir. Se tiver mulher, dorme abraçado com as duas”. Ele ainda cravou frases do tipo “pênalti é uma coisa tão importante, que quem devia bater é o presidente do clube”, “se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado”, “quem corre é a bola, senão era só fazer um time de batedores de carteira” e “bola tem que ser rasteira porque o couro vem da vaca e a vaca gosta de grama”.

Aqui na taba, o maior discípulo de Neném Prancha foi o índio piratapuia José Onofre Tavares, mais conhecido como Marajara. Durante 40 anos – do início dos anos 60 ao final dos anos 80 –, Marajara fundou, organizou ou treinou mais de 50 times de futebol nos bairros da Cachoeirinha, Raiz, Petrópolis e São Francisco, tendo passado por suas mãos mais de 3 mil atletas. Com um detalhe: ele só treinava crianças e adolescentes, nunca foi técnico de um time de adultos. E, a despeito das maledicências e lendas urbanas a seu respeito, nunca sentou em cadeira ocupada. Pelo contrário. Casou um monte de vezes e teve dezenas de amantes. Hoje, com mais de 80 anos, Marajara mora com mulher, filhos, netos e bisnetos no bairro da Alvorada.

Quando o conheci pessoalmente, Marajara morava em uma pequena tapera de palha nas imediações do campo do Peñarol, em Petrópolis, e era dono do time do Canarinho, um dos adversários mais aguerridos do Murrinhas do Egito. Diariamente, incluindo os dias de jogo, ele fazia uma reca de moleques – Ernâni, Eraldo, Erasmo, Donga, Bordado, Ferrinho, Tobias, Irineu etc. – correr do campo do Peñarol até o Igarapé do Crespo, na Raiz. Chegando lá, os moleques se banhavam rapidamente no igarapé e voltavam correndo de volta para a sede do clube (a tapera do Marajara), onde recebiam uma caneca de mingau de banana verde.

Como o mingau era feito com o abominável “leite do posto” (os primeiros experimentos de leite de soja, testados no Terceiro Mundo por conta dos acordos MEC-Usaid), metade dos atletas era acometida de disenteria na mesma hora. Pra nós, do Murrinhas do Egito, que costumávamos enfrentar o Canarinho desfalcado de seus melhores atletas por conta do famoso mingau de banana verde, era uma mão na roda.

Homem de poucas luzes, quase analfabeto, extremamente simples, Marajara comprava os equipamentos dos times (jogo de camisas, calções e meiões) com seus próprios recursos. Nunca recebeu uma mísera ajuda oficial, mas também não se queixava disso. Ele era apaixonado pela Seleção Brasileira de 1958 (que eu também considero a melhor de todos os tempos) e sua filosofia de jogo era baseada exclusivamente na tática implantada por Vicente Feola: ao atacar, abra os ponteiros, ao defender-se, congestione o meio fechando a cabeça da área. Se na criação o companheiro deslocar, deverá receber na feição, mas se outro pedir, é porque estará mais confiante ou melhor colocado. Portanto, ataque em leque e defenda em funil, quem desloca recebe e quem pede tem preferência. Simples assim.

Com o passar do tempo, Marajara acabou por adaptar essa teoria para a cultura baré, reunindo algumas máximas de fácil entendimento para a molecada. Assim, antes de seu time entrar em campo, ele reunia a defesa em um canto e dava suas recomendações finais:

– O goleiro precisa ser igual visgo de jaca em pé de curió: pegou, não larga mais. Os laterais têm que jogar igual limpador de para-brisa: indo e vindo o tempo todo. Os zagueiros têm que jogar que nem mandioca braba: plantado na área sem sair! O volante tem de jogar como quem tomou lacto-purga em jejum: tendo muito cuidado pra não fazer merda! E não esqueçam que atacante inimigo é feito cabeça de prego: tem que levar porrada, até sumir da frente!

Depois que conversava com a defesa, Marajara se reunia com os atacantes:

– O armador tem que distribuir a bola igual a rabo de vaca: prum lado e pro outro, prum lado e pro outro! O ponta direita tem que ser igual navalha Solingen em mão de malandro: cortou no meio, rasga em diagonal. O ponta esquerda tem que ser que nem preá no cio: só cruzando, só cruzando! O ponta de lança tem que jogar que nem espartilho de puta: apertando por trás e entrando pelas brechas. O centroavante tem que jogar igual calcinha em rabo de quenga: enfiadinho o tempo todo!

Depois da preleção com os atacantes, reunia o time inteiro:

– Não gosto de capitão de equipe calado. Ele tem de ser que nem cabrito entrando na faca: berrando o tempo todo! O jogo está amarrado no meio-campo? Os laterais devem se adiantar pra fazer a tática do tatu com porco: cavar e fuçar, cavar e fuçar. Quando a gente estiver sendo atacado, arrecua o time inteiro. E na hora do ataque é que nem enterro de político: vai todo mundo!

Dadas as instruções finais, Marajara fazia todos os atletas se darem as mãos e rezarem um Pai Nosso – provavelmente pedindo a Deus para não serem goleados mais uma vez pelo implacável Murrinhas do Egito, da Cachoeirinha, ou pelos não menos implacáveis Cruz Vermelha, da Raiz, e Monte Cristo, de São Francisco. Homem de pouca fé, seus apelos misericordiosos às forças divinas nunca terminavam bem.

Quando a partida terminava, tivesse seu time perdido ou não, Marajara reunia os garotos em sua própria residência e servia refresco de mangarataia com bolo de macaxeira, tudo custeado do próprio bolso. Por sua dedicação ao futebol amador, o índio piratapuia bem que merecia uma estátua em praça pública.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 18

 


18. Todo desfile de escola de samba possui seus momentos de tensão. Há fantasias rasgando, destaques passando mal, ritmistas desaparecendo, alegorias pegando chuva e presidentes fazendo promessas aos santos em tempo real. Mas poucas crises carnavalescas alcançaram o nível de confusão produzido por um simples centauro quebrado.

Naquela noite, o GRES Vitória Régia organizava os últimos detalhes da concentração quando o carro abre-alas resolveu exercer seu direito constitucional de apresentar defeito mecânico. A alegoria trazia um majestoso centauro, símbolo de força, imponência e outras virtudes mitológicas que desaparecem imediatamente quando uma roda quebra. O desfile estava prestes a começar. O relógio corria. O público aguardava. E o centauro permanecia imóvel, tão útil quanto um submarino atolado no deserto.

Enquanto a equipe de manutenção tentava ressuscitar a alegoria na base da reza, martelo e improviso, as demais alas seguiram ocupando suas posições. Quinze minutos depois, o milagre aconteceu. O carro voltou à vida. Ou quase. Uma multidão começou a empurrá-lo em velocidade máxima para colocá-lo na frente da escola antes que alguém percebesse o atraso. Na dianteira vinham os diretores de harmonia, já em estado de pré-infarto.

– Abram alas, que o centauro vem aí! Abram alas, que o centauro vai passar!

A ordem era clara. Objetiva. Impossível de ser mal interpretada. Ou pelo menos parecia. Foi então que entrou em cena Boca de Bilha.

Toda escola de samba possui uma figura que transforma pequenos problemas em grandes espetáculos. Boca de Bilha era essa pessoa. Integrante da bateria e sempre disposto a colaborar, percebeu a dificuldade dos diretores e resolveu ajudar. O problema é que sua audição, sua interpretação de texto ou sua compreensão da mitologia grega talvez não estivessem funcionando perfeitamente naquele momento. Sem pedir autorização a ninguém, disparou na frente da alegoria empurrando brincantes para os lados como um guarda de trânsito possuído. E começou a berrar:

– Abram alas que o seu Dauro vem aí! Abram alas que o seu Dauro vem aí!

A situação mudou instantaneamente. Porque uma coisa é um centauro. Outra completamente diferente é Dauro Braga. Em poucos segundos, a informação se espalhou pela concentração como fofoca em grupo de família.

– O seu Dauro tá vindo!

– Sai da frente!

– Abre espaço!

– Corre!

Ninguém sabia exatamente o que estava acontecendo. Mas, quando dezenas de pessoas começam a correr e alguém grita o nome de um empresário importante, a reação natural do brasileiro é correr também e perguntar depois. As alas começaram a se deformar. Os brincantes se empurravam. As baianas procuravam abrigo. Os componentes se espalhavam em todas as direções. Parecia uma evacuação de emergência. E no meio daquele pandemônio vinha o pobre centauro, inocente, sendo empurrado por dezenas de pessoas que não entendiam por que a multidão estava fugindo dele.

O mais engraçado é que o próprio Dauro Braga (foto), pai do presidente da escola Darlan Braga, sequer estava envolvido na confusão. Provavelmente encontrava-se em algum ponto da concentração resolvendo problemas infinitamente mais importantes. Mas, por alguns minutos gloriosos, tornou-se involuntariamente uma espécie de força da natureza. Uma entidade tão poderosa que bastava anunciarem sua chegada para multidões abrirem passagem em pânico. Nem Moisés abriu o Mar Vermelho com tanta eficiência. Nem carro de bombeiro. Nem ambulância. Nem procissão.

A simples hipótese de que “seu Dauro vinha aí” produziu resultados muito mais rápidos do que qualquer planejamento de harmonia. No fim, o desfile aconteceu, o centauro ocupou seu lugar e a escola seguiu seu caminho. Mas a verdadeira lenda daquela noite não foi a alegoria mitológica. Foi a descoberta de que, na cabeça de Boca de Bilha, centauro e seu Dauro eram praticamente a mesma coisa. E, pelo comportamento da multidão, talvez o empresário fosse até mais assustador.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 17

 


17. Entre os grandes atos de fé da humanidade estão a construção das pirâmides, a travessia do Atlântico por Colombo e a decisão de Mestre Carlito de emprestar seu violão para Alderico Barros. O resultado foi parecido nos três casos: ninguém sabia exatamente onde aquilo iria parar.

Considerado um dos maiores violonistas da história do Amazonas, Mestre Carlito carregava uma biografia respeitável e um ouvido tão refinado que provavelmente identificaria uma corda desafinada a dois bairros de distância. Cego desde os cinco anos de idade, em consequência de uma conjuntivite provocada pelo sarampo, havia desenvolvido uma relação quase afetiva com seu inseparável Alhambra 8C.

E não era qualquer instrumento. Era um violão espanhol daqueles que fazem músico babar e agiota aceitar como garantia. Tampo de cedro maciço, jacarandá indiano, escala de ébano, ferragens douradas e toda aquela conversa técnica que serve basicamente para informar que o objeto custava caro demais para ser emprestado. Principalmente para Alderico.

Numa tarde de sábado, Alderico apareceu em sua casa com a tradicional expressão facial dos homens que estão prestes a pedir um favor que jamais deveriam pedir. Queria o violão emprestado. Por um dia apenas.

– Devolvo hoje mesmo!

A frase mais perigosa da língua portuguesa. Carlito hesitou. Alderico insistiu. Carlito hesitou de novo. Alderico insistiu melhor. E assim, depois de uma conversa que certamente deveria ser estudada pelos departamentos de psicologia das universidades, o violão foi entregue. Foi a última vez que alguém viu o Alhambra em liberdade.

O domingo chegou. Nada. A segunda-feira chegou. Nada. Uma semana passou. Nada. Duas semanas depois, o violão já havia adquirido o mesmo status de desaparecidos famosos como o voo MH370, a Arca da Aliança e o dinheiro das obras públicas.

Foi então que entrou em cena o violonista Rinaldo Buzaglo. Num trabalho investigativo digno da Polícia Federal, conseguiu descobrir o endereço de Alderico. Passou na casa de Carlito. Colocou o amigo no carro. E partiram para a missão.

Chegando à residência do suspeito, encontraram apenas a proprietária da vila. Ela não sabia do paradeiro do violão. Mas sabia onde Alderico trabalhava. O que já era mais informação do que a polícia costuma conseguir em certos casos. Lá foram eles para a Cidade Nova.

Encontraram o homem. Alderico os recebeu com a cordialidade de um contribuinte diante de uma auditoria da Receita Federal. Disse que estava ocupado. Muito ocupado. Só poderia tratar daquele assunto após o expediente.

Eram nove horas da manhã. Nove horas. Carlito e Rinaldo fizeram o que qualquer cidadão desesperado faria. Montaram campana num bar. Passaram o dia inteiro esperando. Quando deu seis da tarde, reapareceram.

Dessa vez Alderico embarcou no carro. Vitória. Ou assim parecia. Os três seguiram rumo à Praça 14. Carlito já devia estar imaginando o reencontro com o velho Alhambra. Talvez até planejando um sermão. Talvez um abraço. Talvez um homicídio leve.

Quando se aproximaram da rua Nhamundá, Alderico orientou:

– Dobra à direita.

Carlito estranhou. Rinaldo também:

– Como assim? Tua casa é dobrando à esquerda.

Foi então que Alderico pronunciou uma das frases mais extraordinárias da história da malandragem amazônica.

– Eu sei, meus manos, eu sei. Mas nós não vamos lá em casa.

Pausa dramática.

– Vamos primeiro na casa da Mãe Ângela de Iansã.

Silêncio.

– Ela é uma cartomante poderosa. Filha de catimbozeiros maranhenses. É a única pessoa capaz de colocar uma vidência e descobrir onde está o teu violão.

Observe a genialidade da situação. O principal suspeito do desaparecimento do instrumento estava sentado dentro do carro. A menos de vinte minutos de sua própria residência. Mas, segundo sua linha de raciocínio, a melhor estratégia investigativa não era abrir a porta da casa. Era consultar o sobrenatural. Era como um ladrão de galinhas sugerir a contratação de um arqueólogo para descobrir quem roubou o galinheiro.

Naquele instante, até Carlito, que não enxergava havia décadas, provavelmente conseguiu visualizar perfeitamente o tamanho da picaretagem. O que aconteceu depois ninguém sabe ao certo. O que se sabe é que a vidência falhou. Os espíritos não colaboraram. Os búzios entraram em greve. Os orixás pediram licença. E o velho Alhambra desapareceu para sempre.

Talvez tenha sido vendido. Talvez tenha sido trocado por dívida. Talvez esteja até hoje encostado em algum canto, aguardando que alguém toque um samba em sua homenagem. Ou talvez a Mãe Ângela realmente tenha descoberto onde ele estava e preferido não contar. Porque, às vezes, nem o mundo espiritual tem coragem de se meter em certas histórias.

quarta-feira, agosto 12, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 16

 


16. Após uma daquelas discussões civilizadas em bailes de carnaval na cidade de São Paulo que terminam com trocas de argumentos à base de punhos, o ator Paulo César Pereio saiu da contenda com alguns dentes em estado de reflexão profunda sobre sua permanência na boca. Os mais abalados eram justamente os da linha de frente, que haviam recebido o impacto inicial da diplomacia.

Com a fome rugindo mais alto que o orgulho e a carteira exibindo o tradicional vazio artístico, Pereio foi atrás de um restaurante compatível com sua situação financeira e odontológica. Encontrou o lendário Salada Paulista, um desses estabelecimentos onde a comida tinha duas qualidades inquestionáveis: era barata e conseguia fazer a saudade da merenda escolar parecer alta gastronomia.

Temendo que sua recém-adquirida condição de quase-banguela comprometesse a reputação de galã marginal que cultivava com tanto empenho, aproximou-se do caixa e cochichou, cobrindo a boca como quem transmitia segredo de Estado:

– Me vê um prato-feito aí, companheiro. Capricha no molho e pega leve na carne. Tô com uns dentes meio frouxos...

O caixa, homem pouco afeito às sutilezas da comunicação humana, resolveu compartilhar a informação com todo o recinto. Ergueu a voz num volume capaz de alcançar a Marginal Tietê:

– Ô, Bixiga! Manda um PF pro artista aqui!

A casa silenciou. O caixa prosseguiu, impiedoso:

– Afoga no molho! O arroz com feijão pode vir em versão líquida, que o sujeito tá mastigando apenas na fé!

Achando pouco, completou:

– E vê se corta a carne em pedacinho pra recém-nascido, porque o companheiro aqui tá quase só gengiva!

Dizem que Pereio perdeu a fome na mesma hora. Não por causa dos dentes, mas porque descobriu que, naquele restaurante, a humilhação já vinha incluída no preço do prato-feito.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 15

 


15. Fevereiro de 2002. O sambista Gera de Vila Isabel desembarcou em Manaus investido de uma responsabilidade que poucos homens receberam ao longo da história. Não era uma missão diplomática. Não era uma missão militar. Não era sequer uma missão artística. Era pior. Tratava-se de uma encomenda pessoal de Martinho da Vila. E quem conhece Martinho sabe que ignorar uma encomenda sua equivale a desafiar uma entidade da natureza. É mais seguro contrariar uma tempestade amazônica.

O pedido era simples: levar para o Rio de Janeiro uma boa manta de pirarucu seco. Meses antes, Martinho havia provado um pirarucu de casaca em Manaus e sofrido aquilo que os cientistas chamam de “impacto gastronômico irreversível”. Voltou para casa convencido de que sua esposa Russa ou a filha Martinália conseguiriam reproduzir a iguaria. Faltava apenas um detalhe. O peixe. E para isso entrou em cena Gera, transformado involuntariamente em transportador internacional de pescado.

No domingo pela manhã, ele foi ao Mercado Adolpho Lisboa e escolheu uma manta digna de representar o Amazonas perante a nação. O vendedor fez o procedimento técnico tradicional: enrolou o produto em algumas folhas de jornal que provavelmente já tinham noticiado três mudanças de moeda e duas crises políticas, colocou tudo numa sacola plástica e desejou boa sorte. Era o equivalente amazônico de um certificado de qualidade.

Qualquer morador local saberia imediatamente o que fazer: providenciar uma caixa de isopor, vedação reforçada e rezar para Nossa Senhora dos Transportes Perecíveis. Mas Gera estava confiante. Confiante demais. Decidiu acomodar a manta na bagagem de mão, junto dos ternos, camisas, cuecas e demais itens que, até então, possuíam um futuro promissor.

O voo até Brasília transcorreu normalmente. O pirarucu permaneceu em silêncio. Aparentemente morto. Aparentemente. Após a escala, porém, alguma combinação entre altitude, pressão atmosférica, temperatura, química orgânica e forças malignas ancestrais resolveu entrar em ação.

Gera acordou com um cheiro estranho. Primeiro investigou os sovacos. Nada. Depois examinou as meias. Nada. Por um instante cogitou que o problema fosse algum passageiro transportando um cadáver clandestino. Mas o odor continuava crescendo. Não era um cheiro. Era uma presença. Uma entidade gasosa. Uma força da natureza. Um atentado biológico.

Incomodado, chamou uma aeromoça. Ela aspirou o ar. Arrependeu-se imediatamente. Os olhos lacrimejaram. A alma tentou abandonar o corpo. A profissional recuou como quem acabara de encontrar Satanás escondido no compartimento de bagagens. Em poucos minutos, toda a tripulação estava mobilizada. Começou uma operação de busca digna da Polícia Federal.

Revistaram compartimentos. Inspecionaram sanitários. Procuraram ratos mortos. Procuraram vazamentos. Procuraram passageiros suspeitos. Procuraram até explicações sobrenaturais. Enquanto isso, o cheiro avançava pela aeronave como um exército invasor. Passageiros tossiam. Outros tapavam o nariz com jornais. Alguns começaram a considerar seriamente a possibilidade de saltar sem paraquedas.

A situação ficou tão dramática que a classe executiva praticamente declarou independência. A porta divisória foi fechada como se estivessem isolando uma zona contaminada durante uma epidemia medieval. De um lado, os ricos. Do outro, o apocalipse.

Sem encontrar a origem do problema, a tripulação iniciou uma inspeção bagagem por bagagem. Todos foram obrigados a abrir suas malas. A essa altura, Gera já estava em estado de decomposição emocional avançada. Sentia o vômito subir até a garganta, bater continência e voltar.

Quando chegou sua vez, ele apenas apontou para a pequena valise aos seus pés. As comissárias abriram. E encontraram o horror. O belo pirarucu avermelhado havia deixado de existir. No seu lugar havia uma substância escura, viscosa e ameaçadora que parecia ter sido coletada diretamente do fundo de um aterro sanitário durante uma enchente. Aquilo já não era peixe. Era um conceito. Uma experiência química. Uma arma não convencional. Uma criatura.

Por sorte, a descoberta ocorreu quando o avião já estava pousando no Galeão. Caso contrário, existia a possibilidade real de a aeronave ter sido desviada para investigação por crime ambiental. Desembarcando, Gera carregou a sacola como quem transporta material radioativo. Evitava contato visual. Evitava aproximações. Evitava movimentos bruscos. Na primeira oportunidade, encontrou um terreno baldio ao longo da Linha Vermelha e realizou o funeral sumário da encomenda. Sem velório. Sem flores. Sem homenagens.

Quando Martinho da Vila soube da tragédia, ficou devastado. O pirarucu dos seus sonhos havia se transformado numa catástrofe aeronáutica. Dizem que o sambista passou seis meses sem falar com Gera. Seis meses. O que, em linguagem diplomática, equivale ao rompimento temporário das relações entre duas nações. E tudo porque um homem acreditou que uma manta de pirarucu seco podia viajar milhares de quilômetros dentro de uma sacola plástica ao lado de cuecas e ternos sem que nada de ruim acontecesse. Uma demonstração de otimismo que deveria ser estudada pela Nasa.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 14

 


14. Sempre que vinha a Manaus, a cantora Leci Brandão tratava a Zona Franca com a mesma devoção que muitos turistas reservam para Paris ou Nova York: aqui era a sua verdadeira meca de consumo. Simples assim. 

Numa dessas viagens, ela chegou dois dias antes do show para fazer compras e movimentar a economia local. Enquanto isso, seu parceiro de banda, Zé Maurício – banjista, cavaquinhista, boêmio profissional e candidato permanente ao Prêmio Nobel da Manguaça – resolveu aproveitar a folga participando de uma roda de pagode no lendário boteco Sovaco de Cobra, na Cidade Nova.

Os enormes óculos fundo de garrafa davam a ele a aparência de um professor de física prestes a explicar mecânica quântica. Era pura propaganda enganosa. Por trás das lentes habitava um pagodeiro feroz, especializado em cordas, cervejas e decisões questionáveis. A roda de samba começou ao meio-dia. Às seis da tarde, quando qualquer cidadão sensato já estaria voltando para casa, os pagodeiros concluíram que a única solução racional era continuar bebendo em outro bar. Migraram para o Rasga Velha, no Zumbi dos Palmares, numa espécie de romaria etílica.

Zé Maurício já estava tão bêbado que parecia transmitir o sinal da Rádio Relógio em código Morse. Preocupados com o abatimento do companheiro, os “manos” decidiram aplicar a tradicional medicina alternativa dos botequins amazônicos. Primeiro ofereceram uma carreirinha de brilho. O músico ficou elétrico. Como a situação piorou, resolveram acalmá-lo com um monumental baseado de mesclado. A lógica científica da operação era impecável: apagar um incêndio jogando gasolina.

O resultado foi imediato. Zé Maurício ultrapassou os limites da embriaguez convencional, atravessou a estratosfera da consciência e estacionou em alguma dimensão paralela onde os relógios andam para trás e os postes contam piadas. Enquanto isso, Leci Brandão começou a notar um detalhe inconveniente: o músico havia evaporado.

Desesperada, foi até a Rádio Difusora pedir ajuda ao radialista Ormando Barbosa, apresentador do Clube do Samba. Entrou ao vivo e fez um apelo emocionante:

– Olha, gente, aqui quem fala é a Leci Brandão. Se vocês encontrarem um sujeito alto, branco, de óculos de grau, com um banjo amarrado nas costas, por favor, peguem ele do jeito que estiver e levem ao Hotel Imperial. Eu pago a corrida...

Foi provavelmente o primeiro caso da história de Manaus em que uma artista utilizou a rádio para anunciar o desaparecimento de um músico adulto que havia sido visto pela última vez seguindo espontaneamente um grupo de pagodeiros.

O anúncio fracassou miseravelmente. Zé Maurício só reapareceu às seis da tarde do dia seguinte, devolvido pelos amigos como quem entrega um eletrodoméstico usado após um fim de semana de testes extremos. Ainda estava muito doido. Seus olhos tinham a expressão de quem acabara de conversar pessoalmente com três santos, dois extraterrestres e um boto cor-de-rosa.

Leci estava furiosa. Mas o show precisava acontecer. Levaram o músico para o Clube da Caixa, onde ele foi depositado num sofá do camarim para uma hibernação emergencial. Quando a apresentação começou, Leci percebeu que o cavaquinhista havia sumido de novo. Pegou o microfone e resolveu brincar:

– Zé Maurício... Zé Maurício... cadê tu, rapá? A gente tá sentindo tua falta...

Lá no camarim, ainda operando com aproximadamente 12% da capacidade cerebral original, Zé Maurício ouviu seu nome. Sentiu o chamado. Atendeu ao chamado. E saiu correndo em direção ao palco. Infelizmente, havia uma porta de vidro temperado entre ele e seu destino. O encontro foi rápido, intenso e definitivo.

A plateia assistiu a uma demonstração prática das propriedades físicas do vidro temperado. Houve estilhaços para todos os lados. Os óculos do músico explodiram em fragmentos microscópicos. O rosto virou um mapa topográfico de pequenos cortes. O show foi interrompido para socorrer o herói.

Leci Brandão, que até então estava apenas irritada, atingiu um estado emocional em que vulcões costumam pedir moderação. Mesmo assim, manteve o profissionalismo e anunciou ao público:

– Tem alguém aí que saiba tocar cavaquinho? Ou banjo? Porque o meu músico resolveu disputar o campeonato mundial de manguaça e está temporariamente fora de operação...

A plateia ficou muda. Talvez por solidariedade. Talvez por medo. Talvez porque todos ainda estivessem processando a cena do homem que tentou atravessar uma porta de vidro usando apenas a força da vontade. Foi então que Caio do Cavaco e Edu do Banjo surgiram para salvar a noite. Assumiram os instrumentos, garantiram o espetáculo e viveram seus quinze minutos de fama.

Já Zé Maurício entrou para a história como talvez o único músico capaz de desaparecer por trinta horas, mobilizar uma emissora de rádio inteira, sobreviver a uma expedição química de alto risco e, no momento mais importante da carreira, ser derrotado por uma porta.

terça-feira, agosto 11, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 13

 


13. Fevereiro de 1985. O carnaval carioca fervia, as escolas desfilavam, os sambistas sambavam e a TV Globo, sempre atenta à oportunidade de transformar qualquer imprevisto em televisão de qualidade duvidosa, colocava sua repórter Maria Lúcia Rangel no meio da avenida para colher depoimentos espontâneos – essa perigosa modalidade jornalística em que ninguém sabe o que vai sair da boca do entrevistado. 

Foi então que surgiu ela: Neuzinha Brizola. Ou melhor, uma versão de Neuzinha que parecia estar recebendo sinais de rádio diretamente de Saturno.

Filha de Leonel Brizola, então governador do Rio de Janeiro, cantora de rock e protagonista frequente das colunas policiais, Neuzinha já possuía uma reputação capaz de causar palpitações em qualquer assessor de imprensa. Naquela noite, porém, resolveu elevar o padrão.

Maria Lúcia aproximou o microfone da moça, que dançava com a desenvoltura de quem havia feito um acordo particular com a gravidade.

– Essa moça dançando aqui do meu lado é Neuzinha Brizola, que caiu no samba de maneira total. Neuzinha, o samba é melhor que o rock?

Neuzinha respondeu praticamente de costas, talvez porque estivesse ocupada demais conversando com entidades invisíveis:

– É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

A resposta não esclareceu absolutamente nada, mas produziu um excelente material televisivo.

A repórter insistiu.

– E você está torcendo por alguma escola?

– Tô torcendo por toooodaaaas... É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

Naquele momento, qualquer jornalista experiente teria entendido que a entrevista já havia entregue tudo o que tinha para entregar. Mas a televisão ao vivo possui uma característica semelhante à dos filmes de terror: os personagens sempre tomam a decisão errada.

Maria Lúcia avançou.

– Mas tem alguma que você gostou mais do que as outras?

– Nãããããooooo... Tô curtindo toooodaaaas... É difereeeennntee!... Tô achando lindooooo... Tô choraaaando... Tá me emocionaaaaando...

A essa altura, o público já havia percebido que Neuzinha não estava exatamente respondendo perguntas. Ela parecia funcionar como um disco arranhado movido a emoção, repetindo as mesmas frases em loop enquanto navegava por dimensões que o restante da humanidade desconhecia.

Em algum lugar da transmissão, um diretor de TV provavelmente começou a esfregar as mãos. Porque a entrevista reunia tudo que a televisão adora: celebridade, constrangimento, imprevisibilidade e uma vítima incapaz de perceber que estava sendo transformada em espetáculo nacional.

O resultado foi devastador. No dia seguinte, milhões de brasileiros já tinham assistido à cena. Neuzinha virou assunto de botequim, de escritório, de fila de banco e de mesa de almoço. Se a intenção era apenas registrar uma foliã curtindo o carnaval, a operação fracassou. Se a intenção era produzir uma das entrevistas mais constrangedoras da história das transmissões carnavalescas e ainda deixar o governador Leonel Brizola com vontade de desligar a televisão na tomada, então foi um sucesso retumbante.

A Globo conseguiu aquilo que todo programa de auditório sonha alcançar: encontrar uma pessoa completamente incapaz de dar uma resposta coerente e, mesmo assim, mantê-la no ar pelo máximo de tempo possível.

E Neuzinha, sem querer, acabou produzindo uma obra-prima involuntária do surrealismo televisivo brasileiro: uma entrevista inteira resumida a três frases, uma emoção incontrolável e uma guerra sem vencedores entre o samba, o rock e a lucidez.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 12

 


12. O jogador Dirran era a grande sensação do campeonato potiguar. Vestia a camisa do Alecrim e colecionava elogios dos cronistas esportivos. Não era exatamente o que a ciência classificaria como um protótipo de atleta olímpico: era baixinho, entroncadinho, meio “agalegado” e tinha pernas tão curtas que parecia correr sempre dentro de um raio de três metros. Mas o danado fazia gol. E, no futebol, quem faz gol ganha até licença para desafiar as leis da anatomia.

Num clássico pegando fogo contra o ABC, em 1971, o narrador Tertuliano Pinheiro, da Rádio Poti, parecia ter sido contratado pelo fã-clube oficial do atacante.

– Dirran é um craque da bola!

Cinco minutos depois:

– Dirran é a maior revelação do futebol norte-rio-grandense!

Mais alguns minutos:

– Que jogador extraordinário é Dirran!

Era Dirran pra cá, Dirran pra lá, Dirran pra cima, Dirran pra baixo. Se alguém ligasse o rádio no meio da transmissão, pensaria que o Alecrim tinha escalado onze Dirrans.

E o pior é que o narrador tinha razão. O baixinho infernizou a defesa adversária e marcou os cinco gols da vitória por 5 a 2. Cinco! E, para humilhar ainda mais os zagueiros do ABC, dois foram de cabeça. Até hoje ninguém sabe se os defensores perderam o tempo da bola ou se a gravidade resolveu tirar folga naquele domingo.

Ao final da partida, com o estádio ainda tentando entender o que havia acontecido, o repórter Djalma Correia foi atrás do herói do jogo para esclarecer uma dúvida que já atormentava os ouvintes.

– Então, Dirran, seu nome é de origem francesa? Você tem algum parente francês?

O atacante olhou para o repórter com a mesma expressão de quem descobre que alguém confundiu farinha d’água com caviar.

– Não, sinhô!

– Não?

– Não, sinhô! É que eu sou baixim. Meu apelido é Cu de Rã. Como não podia falar palavrão na rádio, eles abreviaram!

Naquele instante, caiu por terra toda a teoria da ascendência europeia, da sofisticação francesa e da genealogia aristocrática. O grande craque potiguar não era fruto de nenhuma linhagem de nobres da Provence. Era apenas um apelido de arquibancada promovido à categoria de nome artístico pelo departamento de censura da rádio.

Telecoteco do Balacobaco - Canto 11

 


11. Se dona Sílvia havia perdido a fé na Polícia de Choque, outro morador da rua Dr. Martins Santana ainda acreditava que as forças da ordem eram capazes de resolver o problema dos pagodeiros do Morro da Liberdade. 

O nome dele era Franciner Pinto. Empresário respeitado, dono de uma famosa padaria da vizinhança e pai do futuro diretor de bateria Clemilton Pinto, da Mocidade Independente de Aparecida, que também foi “peara” do bumbá Garantido, de Parintins.

Mas, naquele tempo, Franciner tinha uma convicção inabalável: a culpa de tudo era do samba. Se vendia pouco pão, era o samba. Se faltava cliente, era o samba. Se queimava uma fornada de pão francês, provavelmente também era o samba. Na cabeça dele, a roda de pagode montada pelos meninos da rua já havia se transformado numa espécie de organização criminosa especializada em espantar fregueses.

Até que, num sábado particularmente barulhento, Franciner perdeu a paciência. Pegou o telefone e acionou a Polícia Militar. Dessa vez, pensou ele, a bagunça acabaria. O que ele não sabia era que São Pedro também havia resolvido participar da história. Pouco depois da denúncia, caiu sobre o Morro da Liberdade uma chuva tão forte que parecia prestação atrasada do inverno amazônico. Era água por cima. Lama por baixo. E vento vindo de todos os lados.

Qualquer pessoa normal teria ido para casa. Mas pagodeiro não é exatamente uma pessoa normal. Ao perceber que o temporal não dava sinais de trégua, a turma tomou uma decisão estratégica de altíssimo nível intelectual: comprar uma caixa de Caninha 51.

A logística era simples. Havia apenas um copo. Um único copo. Daqueles de vidro grosso que um dia já haviam abrigado azeitonas e agora serviam à coletividade. O cidadão tomava uma lapada de cachaça, fazia uma careta capaz de assustar um curupira e passava adiante. Era praticamente um sistema cooperativo de aquecimento humano.

A chuva aumentava. A pinga circulava. E o samba melhorava. Foi nesse ambiente de elevada sofisticação cultural que surgiu um Fusca da Rádio Patrulha. Lá dentro, três policiais observavam a cena. O soldado motorista baixou um pedaço do vidro. Só um pedaço. Porque ninguém é doido de abrir a janela inteira numa tempestade daquelas. E começou a chamar um dos pagodeiros. Ninguém ouviu. Ou melhor: ouviram e fingiram que não.

O segundo soldado insistiu. Recebeu exatamente a mesma atenção que um poste recebe durante um desfile de carnaval. Então entrou em ação a autoridade máxima da viatura. O cabo. O homem ajeitou o revólver no coldre, respirou fundo, abriu a porta e mergulhou na chuva. Atravessou a rua sob o vendaval decidido a colocar ordem na situação. Não conseguiu dizer uma única palavra. Antes mesmo de abrir a boca, Jairo Beira-Mar anunciou para toda a roda:

– Ei, pessoal! Esse aqui é o cabo Macaxeira, o rei da caixinha de guerra! Traz uma pra ele mostrar serviço! E capricha na pinga porque ele é dos nossos!

O cabo foi pego tão de surpresa que não teve tempo nem de negar. Recebeu a dose. Virou. Recebeu a caixinha. Tocou. Recebeu outra dose. Virou. Recebeu aplausos. Gostou. Na terceira dose já estava sorrindo. Na quarta, já estava dando opinião sobre andamento de samba. Na quinta, provavelmente já se considerava fundador honorário do grupo. Pouco depois, Macaxeira retornou à viatura.

Os outros policiais imaginavam que finalmente viriam as prisões. As advertências. Talvez até alguma multa. Mas o cabo tinha outros planos. Chegou à janela e decretou:

– Avisa pro comando que a ocorrência foi resolvida!

– Resolvida, cabo?

– Resolvidíssima!

– E agora?

– Agora desliga esse rádio e vem pro pagode que o pessoal aqui é sangue-bom!

Os soldados não discutiram. Em menos de dois minutos, os três estavam completamente ensopados, dividindo o copo de azeitona, cantando refrão, batucando na caixinha de guerra e ajudando a transformar uma operação policial numa confraternização etílico-musical. Naquela noite, a única coisa que a Polícia Militar conseguiu reprimir foi a sobriedade.

Quanto a Franciner, observando tudo de longe, teve uma revelação dolorosa. Descobriu que existiam duas forças impossíveis de combater naquele bairro: o samba. E, claro, a cachaça. 

Depois daquele dia, nunca mais depositou grandes esperanças na polícia. Afinal, quando os agentes da lei terminam a ocorrência tocando percussão e pedindo mais uma rodada, fica difícil acreditar na eficácia do Estado.

segunda-feira, agosto 10, 2026

Telecoteco do Balacobaco - Canto 10

 


10. Na metade dos anos 70, muito antes de existirem leis de silêncio, grupos de WhatsApp de moradores indignados ou vídeos viralizando no Instagram, havia um método bem mais simples para resolver conflitos de vizinhança: reclamar para a polícia e torcer para ninguém morrer.

No Morro da Liberdade, um grupo de boêmios ilustres – Bosco Saraiva, Jairo Beira-Mar, Gilsinho Poeta, Nicéias Magalhães, Mestre Chocolate, Luizinho Sá, Ivan Oliveira e outros especialistas em transformar qualquer fim de tarde em segunda-feira de ressaca – se reunia diariamente na rua Dr. Martins Santana para uma inocente roda de samba. “Inocente”, claro, dependendo do ponto de vista. Para os sambistas, aquilo era cultura. Para os vizinhos, era poluição sonora. Para os cachorros da rua, era tortura psicológica. Mas ninguém sofria mais do que dona Sílvia.

Ela comandava a Dança Regional Milho Verde, também instalada na mesma rua. Enquanto os pagodeiros despejavam surdos, tamborins e atabaques sem piedade, dona Sílvia tentava ensaiar um grupo embalado por sanfona, zabumba e pandeiro. Era praticamente uma guerra civil musical. De um lado, o samba. Do outro, o regional. No meio, os moradores tentando descobrir qual barulho era pior.

Depois de semanas suportando aquele duelo sonoro digno de uma disputa entre dois carros de som em época de eleição, dona Sílvia perdeu a paciência. E resolveu apelar para uma instituição famosa por sua delicadeza e capacidade de diálogo: a Polícia de Choque.

Naqueles tempos de ditadura, os homens tinham um método de investigação extremamente sofisticado. Primeiro vinham as bordoadas. As perguntas, se sobrasse alguém consciente, vinham depois.

Dona Sílvia fez a denúncia convencida de que os pagodeiros finalmente conheceriam o peso do braço do Estado. Mas naquele dia o destino decidiu beber também.

Por alguma razão misteriosa – talvez inspiração divina, talvez falta de dinheiro para mais uma rodada de cachaça na rua – a turma do samba encerrou o pagode mais cedo e foi transferir suas atividades etílicas para o Bar do Beto.

Quando o caminhão da Polícia de Choque dobrou a esquina, os policiais ouviram música. Não sabiam qual música. Não queriam saber. Nem perguntaram. Viram gente tocando. Era o suficiente.

Desceram distribuindo cacete com a precisão de um temporal de inverno amazônico: atingindo todo mundo, menos quem devia. Os integrantes da Dança Regional Milho Verde foram surpreendidos por uma intervenção cultural patrocinada pelo Estado.

Sanfoneiros voaram para um lado. Pandeiros para outro. Teve gente que terminou o ensaio sabendo mais sobre defesa pessoal do que sobre folclore. A confusão foi tão grande que dona Sílvia, autora intelectual da operação, acabou desmaiando ao assistir sua própria armadilha atropelando os alvos errados.

Entre os integrantes da dança estava Brau. Inocente, puro e besta, Brau era um sujeito baixinho, animado e dono de uma corcova tão respeitável que parecia carregar um pequeno dromedário nas costas. 

Quando a pancadaria começou, ele fez o que qualquer cidadão sensato faria diante da Polícia de Choque da década de 70: correu. Correu como quem devia dinheiro para metade da cidade. Entrou por uma viela e tentou se esconder atrás de um poste. A estratégia tinha um pequeno problema. Brau ocupava mais espaço na profundidade do que na largura.

Mesmo assim, tentou. Ficou de ladinho, na ponta dos pés, acreditando que talvez a física estivesse ao seu favor. Não estava. Um policial o avistou. Sacou a arma e berrou:

– Sai de trás desse poste, porra! Senão vou dar um tiro bem no meio da tua bunda!

Brau percebeu que aquele não era o momento ideal para discutir anatomia. Saiu devagar. Foi então que o policial descobriu que a suposta bunda não era bunda. Era a monumental corcova do rapaz.

O meganha ficou alguns segundos tentando reorganizar as informações dentro da cabeça. Olhou para Brau. Olhou para a corcova. Olhou novamente para Brau. E concluiu que já tinha passado vergonha suficiente por um dia. Guardou a arma e decretou:

– Vai pra casa e não te mistura mais com esse bando de arruaceiro!

Brau foi embora sem entender nada. 

Dona Sílvia também aprendeu uma lição valiosa. Depois de ver sua própria dança regional ser confundida com uma quadrilha de marginais e tomar a surra destinada aos pagodeiros, ela decidiu que talvez o samba não fosse um problema tão grande assim. Dizem que nunca mais chamou a polícia. Afinal, quando a cura é pior que a doença, o melhor remédio é comprar um par de tampões para os ouvidos.